SANTA CATARINA e o CÂNCER DE MAMA

 

Desde os tempos de escola, ouvimos falar que o Brasil tem dimensões continentais.  Desta forma, em nosso vasto território, observamos uma enorme diversidade cultural, econômica e política.

Na Saúde, não poderia ser diferente.  Cada região apresenta suas peculiaridades.

E falando em CÂNCER...  Como é ter câncer de mama em SANTA CATARINA?  Como é o acesso à realização de MAMOGRAFIA e BIÓPSIA, comparado a outros Estados? Qual a média de idade das pacientes e a gravidade do seu câncer no momento do diagnóstico?

E a “Lei dos 60 dias” ?

De acordo com números do DATASUS (sistema de registro de dados em Saúde Pública do Brasil) e INCA (Instituto Nacional do Câncer), foram diagnosticados em torno de 66mil novos casos de câncer de mama no país, no ano 2021.  Notem que, todos os dados a seguir, são provenientes do SUS.

Em Santa Catarina, foram realizadas 83.831 mamografias de rastreamento (rotina) em 2021, ficando atrás de PE (100.868) , RJ (132.427), BA, RS, MG e SP (com impressionantes 753.966 mamografias). Porém, não se engane pelos números absolutos: SC deu cobertura a 18,7% da sua população, enquanto SP cobriu 24,0% na faixa etária de 50-69 anos.

 

 

Foram realizadas 402 biópsias de mama (por milhão de habitantes) em SC; próximo da maioria dos estados, liderados pelo RS , que realizou 1.024 biópsias por milhão de habitantes.

Conforme os dados, 68,6% dos pacientes tinha mais que 50 anos ao começar o seu tratamento em 2021 e, em SC, quase 52% dos pacientes apresentavam estágios avançados ( Estágios III ou IV);   à frente de outros 15 estados da federação, no qual GOIÁS tem o dado mais sensível, com 77% dos seus pacientes apresentando estágios avançados ao início do tratamento.

No Brasil, em 2021, foram realizadas 13.073 cirurgias para o câncer de mama. Infelizmente, a maioria (56%), foram MASTECTOMIAS, ou seja, a retirada completa da mama (figura).  Não temos este dado em separado por Estados, contudo, podemos inferir um número menor de mastectomias em relação aos demais, devido número de pacientes diagnosticados em estágios inicias em nosso Estado, permitindo cirurgias menos agressivas.

 

 

 

Ainda, conforme a “Lei dos 60 dias”, no Brasil, em média 45,1% dos pacientes começaram o tratamento DEPOIS de 60 dias, sendo que SC apenas 26,6% dos pacientes tiveram atraso no início do tratamento, pouco mais da metade da média nacional (figura).

 

 

Por fim, o custo médio do tratamento em SC (por ano) foi de R$2668 reais, abaixo da média nacional (R$3.093 reais). Disso pode refletir o fato de SC realizar diagnósticos mais precocemente do que em outros 15 estados, aliado a uma cobertura de exames e biópsias acima da média nacional e, ainda, por questões culturais e socioeducacionais. Entende-se também que, estados do Sul e Sudeste apresentam melhores políticas sociais e mais recursos para empregar na área da Saúde, estando aí os Estados mais “ricos” da Federação.

Logo, se você reside nessas Regiões, e particularmente em Santa Catarina, pode se considerar minimamente amparada pelo Sistema Público de Saúde.

No SUL, temos a segunda menor taxa de mortalidade do país (15,4%) por câncer de mama.  Logicamente, ainda há muito por fazer. As melhorias não podem se dar apenas à custa dos esforços de recursos humanos (ou seja, da força de vontade dos trabalhadores da Saúde). Precisamos cobrar as autoridades por mais empenho, mais cobertura e mais EQUIDADE na assistência à população. Santa Catarina está repleta de profissionais qualificados. Aguardemos a contrapartida dos Governantes.
Seguiremos nessa luta.

 

Fontes:
1. INSTITUTO NACIONAL DE CÂNCER JOSÉ ALENCAR GOMES DA SILVA. Atlas da mortalidade. Rio de Janeiro: INCA, 2021. Base de dados. Disponível em:  https://www.inca.gov.br/app/mortalidade Acesso em: 18 jan 2021.
2. DATASUS. https://datasus.saude.gov.br/
3. http://radardocancer.org.br/painel/mama/#rastdiag

RECONSTRUÇÃO MAMÁRIA PÓS CÂNCER: A LEI e A REALIDADE

 

 

Há cerca de 30 anos, a cirurgia considerada “padrão-ouro” para o tratamento do câncer de mama era a temida MASTECTOMIA. Esta cirurgia, naquele tempo, consistia da retirada completa da mama, dos músculos peitorais (menor e maior) e ainda, retirada completa dos gânglios (linfonodos) da axila acometida. Perceba: era algo extremamente radical e mutilante, deixando cicatrizes enormes no tórax e em alguns casos, surgimento de inchaço irreversível do braço.

A cirurgia por câncer de mama vem evoluindo nas últimas décadas, tornando-se menos radical, menos agressiva e, principalmente, menos mutilante. Sempre que possível, o cirurgião optará pela cirurgia CONSERVADORA de mama. Ou seja, lançará mão de técnicas e estratégias que o permitam retirar a doença e “conservar” (preservar) a mama da paciente, sem grandes prejuízos estéticos. Esse seria o “mundo ideal” se…

 

… Se os casos de câncer de mama AVANÇADO reduzissem com as estratégias de rastreamento adotadas. Isto quer dizer que, apesar das estratégias e campanhas para realização de mamografias salvarem vidas, o número de pacientes com DOENÇA AVANÇADA (Estágios III e IV- figura 1) não tem mudado! Isso ainda ocorre por razões socioeconômicas, falhas no acesso ao tratamento e questões culturais. Assim, apesar dos avanços do tratamento, um número muito grande de mastectomias ainda é realizado.

 

 

 

Mas vamos direto à questão: se os casos avançados são praticamente uma “constante”, isso quer dizer que inúmeras mulheres são submetidas a mastectomias anualmente. Mas, após retirarem a mama, como ficam estas mulheres?

 

- Qual a porcentagem de mulheres que conseguem realizar a reconstrução mamária?

- O que diz a LEI?

- Quantas realmente estão APTAS ao procedimento?

 

E indo mais além, quantas estão realmente SATISFEITAS com o resultado?

 

Sabe-se do enorme prejuízo psicossocial para a paciente que retira uma mama (ou ambas). Inúmeros trabalhos correlacionam este fato ao surgimento de depressão, ausência de libido, entre outras questões.

Segundo o último Censo da Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica (SBCP), no Brasil, o percentual da taxa de reconstrução mamária (razão de reconstruções pelo número total de mastectomias, multiplicados por 100, a cada ano), que em 2008 foi de 14,9%, continuou estável até 2012; passou a aumentar a partir da implantação da lei de reconstrução mamária, em 2013; em 2014 era de 29,3%. Em 2017, aproximadamente 34% das mulheres realizaram a reconstrução mamária.

Para se ter uma ideia, no Estado de Santa Catarina, dados do Ministério da Saúde apontam que 2.334 mulheres catarinenses fizeram mastectomia entre os anos de 2014 e 2019, porém apenas 346 fizeram a cirurgia de reconstrução, ou seja, aproximadamente 15% dos casos.

 

Mas o que diz a Lei??

 

Em 2013, a Lei nº 12.802, declara que a paciente tem direito a realizar o procedimento através do Sistema Único de Saúde (SUS) imediatamente após a retirada da mama com câncer, na mesma cirurgia, se houver condições clínicas, ou assim que a paciente apresentar os requisitos necessários. Em sua mais recente alteração, em 2018, a Lei nº 13.770/2018, permite também realizar o procedimento de simetrização da outra mama e a reconstrução do complexo aréolo-papilar.

 

A 5ª Câmara Civil do TJ / SC confirmou sentença (em Outubro/2017) que considerou reparatório - e não estético - procedimento cirúrgico para reconstrução mamária de mulher vítima de câncer no seio:

 

" Dessarte, ao contrário do que alega a recorrente, não se tratou de um simples procedimento eletivo ou meramente estético, proveniente da vaidade da paciente, mas sim de uma intervenção necessária para restabelecer por completo a sua integridade corporal, resguardando sua saúde física e também seu estado psicológico, indissociável do estado físico em tais casos, nos quais a mulher tem sua vaidade, sua dignidade e sua autoestima abaladas, vulneradas, ao ver-se mutilada em razão de patologia agressiva e de difícil tratamento como o câncer mamário".

 

Contudo, esta enorme diferença entre o número de mastectomias e o número de reconstruções dá-se pelo total despreparo e precariedade das instituições públicas / hospitais, falta de verbas destinadas a realização dos procedimentos, falta de materiais e insumos (como as próteses mamárias), remuneração inadequada dos profissionais habilitados, e por vezes, da ausência do desejo da paciente em reconstruir a mama.

 

Somado aos fatos, não existe um sistema ativo de captação ou busca destas pacientes, de modo que cada serviço é responsável por gerir tais dados, tornando ineficiente a resolução do problema.

 

Há também outro grande fator: muitas destas pacientes são INAPTAS a realizar o procedimento. Seja por comorbidades importantes (doenças como o diabetes descompensado, condições cardiovasculares ou pulmonares, obesidade, entre outras, que aumentam significativamente o risco de morte durante a cirurgia), por doença ativa, recidivada ou estágio avançado sem perspectiva de vida.

 

Observadas estas considerações, vale ainda dizer, que a reconstrução mamária pode precisar de múltiplas cirurgias para atingir o resultado desejado e, em alguns casos, não atingi-lo. Muito embora, a maioria dos trabalhos mostrem satisfação com o resultado acima de 60%, após qualquer tipo de reconstrução.

Como mastologista e especialista em cirurgia reconstrutora da mama, sou totalmente a favor do direito à reconstrução mamária concedido às pacientes pela Lei.

A realidade? Infelizmente, o acesso à reconstrução pelo Sistema Único de Saúde ainda é precário em muitas partes do Brasil. Há muitos cirurgiões especialistas nessa área, mas o sistema público não possui uma estrutura adequada para atender a todas as pacientes.

Seguimos nessa luta.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Dr. Carlos Breda

Mastologista Especialista em Reconstrução Mamária

“TOP SURGERY” ou CIRURGIA DE REAFIRMAÇÃO DE GÊNERO

 

“TOP SURGERY” ou CIRURGIA DE REAFIRMAÇÃO DE GÊNERO 

       - Mastectomia MASCULINIZADORA -  TÉCNICAS - 

 

Se você é um homem trans, talvez esteja buscando informações sobre este assunto. Cada vez mais falado no meio LGBT, este tema tem sido debatido de forma recorrente entre os cirurgiões de mama. 

 

O processo transexualizador é uma realidade. E existem algumas etapas (ou degraus, por assim dizer), que o paciente precisa cumprir antes de poder COMPLETAR esta longa transformação.  

 

O tratamento é dividido em duas modalidades: a ambulatorial (acompanhamento psicoterápico e hormonização) e a hospitalar (realização de cirurgias de modificação corporal e acompanhamento pré e pós-operatório).

Para alguns homens transexuais, a cirurgia é um passo natural - e importante para seu senso de identidade. No entanto, muitos optam por não fazer a cirurgia. Pessoas "trans" se relacionam com seus corpos de maneira diferente e precisam fazer escolhas individuais que melhor atendam às suas necessidades.

 

Existem vários termos e denominações que você já deve ter lido - cirurgia de disforia de gênero, cirurgia de afirmação de gênero, transexualizadora e afins. Nenhum deles é mais ou menos correto que outro. São apenas "termos". Uns, utilizados por médicos; outros, pelos próprios pacientes.  O importante é que você compreenda que a ideia maior é conduzir o leitor através deste processo com informações de QUALIDADE. 

 

  • Objetivos da cirurgia: 

 

Os princípios básicos da cirurgia de afirmação de gênero do tórax em homens TRANS são: 

 

- remoção do tecido mamário e do excesso de pele;
- redução e posição adequada do mamilo e aréola;
- eliminação do sulco inframamário 

- minimização de cicatrizes da parede torácica. 

 

Com isto, o objetivo é conferir um aspecto mais masculino ao tórax do paciente, realçando contornos e volume mais adequados ao gênero. Em contrapartida, surgem as cicatrizes (maiores ou menores), decorrentes deste processo. 

 

PRINCIPAIS TÉCNICAS 

 

Existem basicamente 3 técnicas cirúrgicas:

 

  • Técnica SEMI-CIRCULAR (e variações) 
  • Técnica PERIAREOLAR
  • Técnica de mastectomia por DUPLA INCISÃO com enxerto livre da aréola e mamilo; 

 

Todas as outras que você encontrar, são variações do que apresento aqui. 

 

A anatomia das mamas e o formato do tórax é que vão ditar a escolha da melhor técnica para cada paciente, guardadas as preferências e expectativas individuais. 

Em alguns casos, associo lipoaspiração do tórax para melhora do contorno. 

 

- TÉCNICAS CIRÚRGICAS:

 

  • Técnica Semi-circular

 

Apropriado para uma minoria de pacientes, com excesso mínimo de mama, pequeno volume, mínimo excesso de pele e bom tônus de pele.

Tem a vantagem de uma pequena cicatriz bem disfarçada.  

Fig1 . Desenho esquemático da Técnica SEMI-CIRCULAR. 

 

Foto 1.: Paciente com mamas pequenas, submetido a técnica semi-circular.. Pré-operatório (Esquerda); Pós-operatório (Direita)

 

 

  • Técnica Periareolar

Apropriada para pacientes com modesto excesso de mama e volume, com expectativa de que ocorra uma remodelação da pele.

Esta abordagem tem a vantagem de remover o excesso de pele e reposicionar o mamilo. A cicatriz circum-areolar é frequentemente desfavorável, porque múltiplos vetores de tensão causam hipertrofia e alargamento da cicatriz; Enrugamento da pele pode ser frequentemente visto.

 

Fig2 . Desenho esquemático da Técnica PERIAREOLAR. 

 

Foto 2.: Pacientes com mamas pequenas, submetidos a técnica periareolar. Pré-operatório (Esquerda); Pós-operatório (Direita) 

 

  • Técnica de MASTECTOMIA por DUPLA INCISÃO com enxerto livre da aréola e mamilo:

 

Geralmente indicado para pacientes com mamas grandes e ptóticas (“flacidas ou caídas”). Consiste na retirada do CAP (aréola e mamilo) como enxerto de pele de espessura total,  amputação total da mama; enxerto  do  CAP em seu novo local na parede torácica. 

As vantagens da técnica são:  melhor contorno do tórax, excelente exposição e ressecção mais rápida do tecido, além da redução do mamilo, redimensionamento da aréola e reposicionamento. 

As desvantagens são as cicatrizes residuais longas, as alterações pigmentares e sensoriais do CAP e a possibilidade de necrose parcial ou total do enxerto da aréola / mamilo. 

Fig 3.. Desenho esquemático da Técnica de DUPLA INCISÃO

 

Foto 3.: Paciente com mamas pequenas, submetido a técnica de dupla incisão. Pré-operatório (Esquerda); Pós-operatório (Direita).

 

 

QUEM PODE FAZER?? 

 

Requisitos básicos para acesso ao processo Transexualizador:

  • Maior de 18 anos para iniciar processo terapêutico e realizar hormonização;
  • Maior de 21 anos para cirurgias de redesignação sexual, com indicação médica; e
  • Necessidade de avaliações psicológicas e psiquiátricas durante um período de 2 anos, com acompanhamentos e diagnóstico final que pode encaminhar ou não a paciente para a cirurgia tão aguardada.

 

O paciente em processo de redesignação sexual, com a comprovação de que foi "diagnosticado como homem transexual (CID F 64.0),  já pode ter seu nome e gênero alterado em todos os documentos".

 

Os homens transgêneros também podem ter acesso à mastectomia pelo SUS, através do “Processo Transexualizador”, instituído pela Portaria nº 2.803, de novembro de 2013. Para ser encaminhado à mastectomia, o paciente transexual precisa atender aos requisitos (vide acima) estabelecidos pelo Conselho Federal de Medicina e pelo Ministério da Saúde. A pessoa deve ter idade mínima de 21 anos e passar por acompanhamento multiprofissional, com psicólogo, psiquiatra, endocrinologista, assistente social e cirurgião por no mínimo dois anos.

 

Locais em Florianópolis, que oferecem ambulatórios de atenção especializada no processo transexualizador : 

 

Centro de Saúde Campeche Florianópolis/SC

Centro de Saúde Estreito Florianópolis/SC

Centro de Saúde Saco Grande Florianópolis/SC

 

Obrigado por ter chegado até aqui com a leitura. 

 

Espero ter ajudado! 

 

Em caso de dúvidas, entre em contato! 

 

Para maiores informações sobre Políticas Públicas de Saúde para a Comunidade LGBTS+ , acesse: 

 

DOENÇA DO SILICONE – Mito ou realidade?

Provavelmente você já deve ter ouvido alguém falar ou até mesmo visto em noticiários, sobre a “Doença do Silicone”. Este é um termo que vem se popularizando, principalmente em redes sociais, volta e meia na pauta de alguma blogueira em evidência. E o final da  história é sempre o mesmo:

 

“Depois que tirei as minhas próteses de silicone, a minha vida mudou...”

 

Mas será que é mesmo assim? Mudou em que sentido? Em qual aspecto?

 

O silicone foi tido por muito tempo e por muitos estudiosos como um material inerte ao corpo humano, ou seja, incapaz de desencadear fenômenos autoimunes. E, a partir dos anos 1980, deu-se início a uma onda de procedimentos estéticos, com objetivo de melhora do contorno corporal (principalmente das mamas), tornando o silicone um dos materiais mais utilizados na Medicina até hoje.

 

Porém, atualmente, estamos vivendo um movimento inverso. Mulheres invadindo consultórios médicos, solicitando a retirada das próteses mamárias. MOTIVO: queixas como indisposição, dor nas juntas, fadiga crônica, alterações do sono e até depressão, alegando terem ouvido falar na “Doença do Silicone” e na “Síndrome ASIA”.

 

No entanto, várias outras doenças podem a produzir estes sintomas. Então como diferenciar?

 

Explicando, a doença do silicone é um termo usado pelas próprias pacientes para descrever um conjunto de sintomas que atribuem ao uso do implante, também conhecido em inglês como Breast Implant Illness (BIIs). Logo, a Doença do Silicone e síndrome ASIA não são a mesma enfermidade.

 

Na verdade, esta “doença / entidade” pode ser englobada como parte de uma Síndrome descrita em 2011, chamada de Síndrome ASIA, que vem do inglês Autoimmune [Auto-inflammatory] Syndrome Induced by Adjuvants, ou em livre tradução -  Síndrome Inflamatória Induzida por Adjuvantes.

 

Os  “adjuvantes” considerados aqui podem ser substâncias contidas nas vacinas, as famosas próteses de silicone em questão, biomateriais cirúrgicos / estéticos ou outros tipos de dispositivos implantáveis no corpo humano.

 

Assim, projeta-se que pessoas submetidas ou expostas a estes materiais poderiam apresentar a tal “Síndrome”. Da mesma forma, acredita-se que aqueles com predisposição genética, deficiência de vitaminas, portadores de doenças autoimunes já diagnosticadas (ex. Artrite reumatóide) e histórico de alergias tenham maior risco de desenvolver a Síndrome ASIA.

 

Para chegar ao diagnóstico da Síndrome ASIA, a paciente precisa ser minuciosamente avaliada, em busca de outras causas para esses sintomas, pois, distúrbios hormonais ou doenças autoimunes são mais comuns para esses sintomas, os quais ao serem identificados por exames laboratoriais podem ser tratados.

 

Uma vez excluídas as causas mais comuns, ou seja, não encontrando uma doença responsável pelos sintomas relatados pela paciente, pode-se considerar tal diagnóstico. No entanto, a sintomatologia é tão vaga e comum (fadiga, dores articulares, etc..), que boa parte da população poderia ser enquadrada como portadora desta Síndrome.

 

De acordo com recente Diretriz da SBM (Sociedade Brasileira de Mastologia), até o presente momento, não há nenhum estudo ou revisão sistemática que mostrou a relação dos implantes de silicone mamário, quer estes sejam lisos ou texturizados, com a síndrome ASIA e que, de acordo com estas revisões, as evidências permanecem inconclusivas sobre qualquer associação entre implantes de gel de silicone e o comprometimento do bem-estar das pacientes.

 

Desta forma, a retirada dos implantes, por uma associação ainda não tão bem estabelecida ou comprovada, pode não trazer os benefícios esperados. Antes de pensar no procedimento de explantação (termo médico correto), outras terapias comportamentais e medicamentosas devem ser exploradas. Há que se falar também da questão estética envolvida na retirada dos implantes. Há casos que podem resultar em verdadeiras deformidades físicas, obrigando a paciente a ser submetida a procedimentos cirúrgicos adicionais para minimizar o “prejuízo” estético.

 

Por fim, como tudo na vida, cada escolha, uma consequência. Obviamente existem riscos e benefícios de ter implantes mamários. Diante dos estudos atuais, não temos evidências científicas que embasem a retirada dos implantes nas pacientes que apresentam sintomatologia referente à Síndrome ASIA, tampouco que haja melhora dos sintomas após a retirada.

 

Minha opinião? Devemos ter bastante cuidado antes de colocar a culpa destes sintomas tão genéricos nesta nova “entidade”. Reexaminar a rotina e hábitos da paciente. Avaliar com honestidade o estilo de vida e alimentação. Certifique-se que não tenha nenhuma doença mais comum (como fibromialgia, hipotireoidismo ou depressão). Busque alternativas para a melhoria dos sintomas. E saiba que, mesmo removendo os implantes, os sintomas podem voltar. Dito isto, não abro mão do uso de próteses. Minhas pacientes submetidas a reconstruções mamárias com prótese devido ao câncer de mama têm um benefício infinitamente superior ao risco de desenvolver algo tão raro, com tão poucas evidências, ao ponto de ainda discutirmos se a “Doença do Silicone” é MITO ou REALIDADE.

 

Dr. Carlos Breda

Médico Mastologista (UNIFESP / Escola Paulista de Medicina)

Especialista em Reconstrução Mamária (Hospital do Câncer Amaral Carvalho – Jaú /  SP)

Clinica de Mastologia e Oncoplastia – Florianópolis / SC